casos de morte
mataram um rato à pauladas na minha rua. ele correu e se escondeu em um arbusto após os primeiros golpes e ainda assim foram atrás dele. arrancaram ele do esconderijo e cobriram de vassouradas, até que ele ficou imóvel. o assassino se foi e eu pude ver sua patinha traseira direita se mover freneticamente, em busca de vida. já era.
uma mulher foi atropelada. eu estava andando na rua e, de repente, vi o tumulto se formar e um pessoal berrar "alguém morreu!!". o trânsito ficou uma loucura, ruas adiante estavam sendo trancadas para facilitar o trabalho de socorro. a mulher estava atirada no chão com a bolsa sobre o peito. quando eu já estava na parada de ônibus, a ambulância passou em direção ao pronto socorro. já era.
um grilo apareceu na sala ontem e meu irmão pegou um jornal e bateu nele. ele escapou e foi para perto da lâmpada. jogamos mais uma rodada e o grilo foi para a frente da televisão. meu irmão pegou um sapato e matou ele. já era.
estou com fome agora. trouxe um lanchinho: patas de urso. mais 40 minutos e ela já era.
uma mulher foi atropelada. eu estava andando na rua e, de repente, vi o tumulto se formar e um pessoal berrar "alguém morreu!!". o trânsito ficou uma loucura, ruas adiante estavam sendo trancadas para facilitar o trabalho de socorro. a mulher estava atirada no chão com a bolsa sobre o peito. quando eu já estava na parada de ônibus, a ambulância passou em direção ao pronto socorro. já era.
um grilo apareceu na sala ontem e meu irmão pegou um jornal e bateu nele. ele escapou e foi para perto da lâmpada. jogamos mais uma rodada e o grilo foi para a frente da televisão. meu irmão pegou um sapato e matou ele. já era.
estou com fome agora. trouxe um lanchinho: patas de urso. mais 40 minutos e ela já era.

1 Comments:
Casos de morte eu vejo, prevejo e revejo. A morte salta de cada olhar, de cada frenético gesto de desespero, de cada angústia que escapa pelo canto da boca (na falta de uma alma ou coisa melhor). Eu gostaria de ver casos de vida. Nem que seja de quem se mata um pouco a cada dia. De quem penetra no breu, dá uma baforada de Marlboro e solta um arroto de Jack Daniels em seu rosto 'cheio de vida'. A vida, Ah! A vida...morreu. Foi assassinada pelos homens de cinza (aqueles com terno engomado e pastinhas de couro, sabe?). Só nos resta perambular pelas noites (não mais negras, mas cinzas...) como zumbis, esperando que nos dêem a estocada final. Esperando que alguém tenha compaixão e nos dê um golpe fatal na nuca (como se mata um rato!!!) e, sem dor, sem traumas, sem nada...possamos dormir sem a coação de um despertador, aquele vigilante permanente, destruidor de sonhos. Minha querida, não existe céu: de uma perspectiva é uma mera ilusão de ótica. De outra perspectiva, é um conto da carochinha contado por imbecis para idiotas. Não há nada...apenas o vácuo contra o qual nos debatemos em agonia e êxtase, esperando a estocada final e o jorro de um líquido cinza e fédito. Estamos mortos e nossos belos apartamentos e casas são nossos caixões. Nosso deus é um eletroeletrônico (alguns não tem caixões: morreram na rua e lá ficaram. Outros não tem deus: desligaram a tomada). Um beijo com gosto de formol. Gostaria de falar coisas belas, mas morri quando um espermatozóide bêbado foi engolido vivo por óvulo canibal. Adeus.
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